A pressão estética deixou de ser uma vaidade corriqueira e se transformou em sofrimento clínico silencioso, profundo e cada vez mais frequente. O alerta é do médico de família da Unimed Araxá, Nathaniel Silva Ribeiro dos Santos, que aborda o Transtorno Dismórfico Corporal (TDC), quadro que ganha força na era dos filtros de inteligência artificial, das telas que nos comparam com milhares de versões modificadas de outras pessoas e da busca exaustiva pela perfeição.
“Diferente da insatisfação ocasional que qualquer um pode ter com o próprio corpo, a dismorfia corporal é um quadro psiquiátrico caracterizado pela preocupação obsessiva com defeitos imaginários ou mínimos na aparência”, afirma o médico. Para quem enfrenta o transtorno, a imperfeição, no formato do nariz, na assimetria do rosto, na textura da pele ou no peso, deixa de ser um detalhe e vira o centro dos pensamentos, com comportamentos compulsivos, isolamento social e busca desenfreada por intervenções que raramente trazem alívio duradouro.
Nathaniel lista as novas faces da dismorfia na era do engajamento. Entre elas, o uso de filtros de IA, que faz o cérebro estranhar o reflexo real no espelho e leva pacientes a pedir procedimentos para se parecer com os próprios “avatares” filtrados, e a banalização das canetas emagrecedoras, medicamentos criados para tratar doenças como diabetes e obesidade que viraram um “atalho mágico para a magreza”, com uso estético e sem acompanhamento ignorando efeitos colaterais severos e agravando transtornos alimentares. Ele cita ainda o skincare precoce entre crianças e pré-adolescentes, que gera ansiedade antecipada sobre rugas que nem existem, e a vigorexia, que leva frequentadores de academia a se enxergarem frágeis no espelho, com excesso de treinos e uso perigoso de anabolizantes.
O médico observa que o transtorno quase nunca chega aos consultórios com esse nome, mas disfarçado na ansiedade por uma receita de caneta emagrecedora, em dezenas de exames por conta de uma queda de cabelo imperceptível ou em um quadro depressivo mascarado pela vergonha do próprio corpo. “A internet vende a ilusão de que a felicidade está a um procedimento ou a uma injeção de distância, embalando essa cobrança com o rótulo de ‘autocuidado'”, afirma. Para ele, o papel de quem atende é desconstruir essa narrativa: “Oferecer um espaço de escuta segura e livre de julgamentos, ajudar a identificar quando a preocupação com a estética cruza a linha, abandona a saúde e se torna uma doença”.
A prevenção, segundo o médico, passa por mudar a forma de consumir conteúdo e de se relacionar com o espelho. Entre as orientações estão fazer uma verdadeira “faxina digital” nas redes, deixando de seguir perfis que geram gatilhos de comparação, estabelecer horários para desconectar, especialmente antes de dormir, desconfiar da ilusão da “pílula mágica”, celebrar a função do corpo em vez de apenas a forma, reavaliar o diálogo interno diante do espelho com autocompaixão, proteger crianças e adolescentes de comentários depreciativos sobre o próprio corpo ou o peso dos outros e buscar uma equipe de saúde quando a preocupação com a aparência gera angústia, isolamento social ou se torna obsessão.
“O cuidado com a saúde mental e emocional é a base para qualquer estilo de vida saudável. O nosso valor e a nossa beleza não podem ser medidos por curtidas, engajamento ou pelo número na balança”, conclui.
Fonte: Daniel Nacati – Assessor de Comunicação / Unimed Araxá
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