O artigo foi escrito por Antonio Egídio Nardi, presidente da Academia Nacional de Medicina e pofessor titular da Faculdade de Medicina da UFRJ, e publicado na plataforma The Conversation Brasil.
Hoje é Dia Mundial da Saúde. E um dos maiores, mais urgentes e intrincados desafios da sociedade contemporânea é a saúde mental. Um problema que exige abordagens científicas, sociais, econômicas e éticas.
Longe de ser um campo restrito à clínica, a saúde mental tornou-se um indicador sensível do grau de desenvolvimento humano. Ela também é reflexo de tensões, desigualdades e transformações de uma sociedade em permanente mutação.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), os transtornos mentais figuram entre as principais causas de incapacidade no mundo, sendo responsáveis por uma parcela significativa dos anos vividos com incapacidade.
A depressão em particular já ocupa posição de destaque como uma das principais causas da carga global de doenças. A OMS afirma de forma categórica: “não há saúde sem saúde mental”. Isto reforça que qualquer projeto de saúde pública que negligencie esse campo estará, inevitavelmente, incompleto.
Alguns fatores para o adoecimento psiquiátrico
A pandemia de Covid-19 representou um marco disruptivo. Estudos internacionais apontam aumento substancial na prevalência de ansiedade, depressão, transtornos do sono e sofrimento psíquico em geral.
O isolamento social, medo da doença, luto coletivo e a instabilidade econômica criaram uma combinação de fatores estressores sem precedentes recentes.
Como bem observou o psiquiatra e pesquisador de saúde global, Vikram Patel, “a pandemia expôs não apenas a fragilidade dos sistemas de saúde, mas também a negligência histórica com a saúde mental”. De fato, a chamada “pandemia silenciosa” da saúde mental revelou-se tão relevante quanto a crise sanitária infecciosa.
No Brasil, esse cenário global se entrelaça com determinantes sociais historicamente complexos. A desigualdade socioeconômica, violência urbana, insegurança alimentar e fragilidades educacionais constituem fatores de risco importantes para o adoecimento psíquico.
A Reforma Psiquiátrica brasileira, inspirada em princípios de desinstitucionalização e cuidado comunitário, promoveu avanços significativos ao substituir o modelo hospitalocêntrico por uma rede territorializada, a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS).
Entretanto, persistem desafios estruturais relevantes: financiamento insuficiente, descontinuidade de políticas públicas, heterogeneidade regional e dificuldades na articulação entre atenção primária, especializada e hospitalar.
A atenção primária à saúde, particularmente no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS), desempenha papel estratégico na identificação precoce e no manejo inicial dos transtornos mentais.
No entanto, a capacitação dos profissionais e a integração com serviços especializados ainda são insuficientes. Esse hiato assistencial contribui para a cronificação de quadros e o aumento da carga de sofrimento individual e coletivo.
Outro elemento central é o estigma. Apesar dos avanços científicos, os transtornos mentais continuam cercados por preconceitos que dificultam o acesso ao tratamento. Como já assinalava Sigmund Freud, “a mente humana permanece, em grande parte, um território desconhecido”, o que favorece interpretações equivocadas e atitudes discriminatórias.
O estigma não apenas marginaliza o indivíduo, mas também impacta políticas públicas, reduzindo investimentos e priorização.
Impacto dos conflitos mundiais na saúde mental
No cenário global, novos determinantes emergem com força crescente. Conflitos armados, crises humanitárias e deslocamentos forçados expõem milhões de pessoas a experiências traumáticas intensas.
Os conflitos armados em curso no Oriente Médio representam um dos mais graves determinantes contemporâneos de sofrimento psíquico em larga escala. Em regiões marcadas por guerras prolongadas, como Faixa de Gaza e áreas afetadas por instabilidade em Israel e países vizinhos, a população civil é continuamente exposta a eventos traumáticos intensos, incluindo violência, deslocamento forçado, perda de familiares e destruição de suas condições básicas de vida.
Esse contexto favorece o aumento expressivo de transtornos como estresse pós-traumático, depressão, ansiedade e transtornos do desenvolvimento em crianças.
A ruptura das redes sociais, a insegurança permanente e a ausência de acesso regular a serviços de saúde agravam ainda mais esse quadro.
Como alerta a OMS, a saúde mental em contextos de conflito não pode ser tratada como secundária, pois constitui parte essencial da resposta humanitária.
Além disso, o trauma coletivo tende a perpetuar ciclos intergeracionais de sofrimento, impactando não apenas os indivíduos diretamente expostos, mas também a coesão social e as perspectivas de reconstrução futura.
Nesse sentido, a guerra não destrói apenas territórios, mas atinge profundamente a estrutura psíquica das populações, deixando marcas duradouras que ultrapassam o tempo dos conflitos.
Paralelamente, as mudanças climáticas introduzem um novo campo de estudo: a saúde mental ambiental. Fenômenos como ansiedade climática, luto ecológico e insegurança diante do futuro tornam-se cada vez mais frequentes, especialmente entre jovens.
Papel ambivalente da tecnologia sobre a saúde mental
As transformações tecnológicas também desempenham um papel ambivalente. A digitalização ampliou o acesso à informação e permitiu o desenvolvimento de intervenções inovadoras, como a telepsiquiatria, aplicativos de monitoramento emocional e terapias digitais.
Entre adolescentes, em particular, observa-se uma relação preocupante entre exposição intensa a redes sociais e aumento de sintomas ansiosos e depressivos.
Como refletiu Byung-Chul Han, “a sociedade do desempenho produz sujeitos exaustos e deprimidos”. Essa análise ajuda a compreender o aumento de quadros relacionados ao burnout e à fadiga emocional.
Do ponto de vista neurobiológico, os avanços recentes têm aprofundado a compreensão dos mecanismos envolvidos nos transtornos mentais, incluindo processos inflamatórios, disfunções neuroendócrinas e alterações na conectividade cerebral.
Ainda assim, permanece o desafio de integrar essas descobertas com abordagens psicossociais, evitando reducionismos. Como destacou George Engel, “a doença deve ser compreendida à luz da interação entre fatores biológicos, psicológicos e sociais”. Essa visão continua sendo fundamental para uma prática clínica abrangente.
Impactos econômicos e políticas públicas
Os impactos econômicos da saúde mental são igualmente expressivos. O Banco Mundial estima que transtornos como depressão e ansiedade gerem perdas anuais de produtividade na ordem de trilhões de dólares.
Investir em saúde mental, portanto, não é apenas uma necessidade ética, mas também uma estratégia economicamente racional. Programas de prevenção, diagnóstico precoce e tratamento adequado apresentam elevado retorno social.
No campo das políticas públicas, torna-se essencial avançar em estratégias integradas e sustentáveis. Isso inclui ampliar o financiamento, fortalecer redes comunitárias, investir na formação de profissionais, promover campanhas de redução do estigma e incorporar a saúde mental em todas as políticas públicas ou privadas de saúde.
A escola, o ambiente de trabalho e a comunidade devem ser espaços privilegiados de promoção de bem-estar psíquico.





